
Reflexões sobre pertencimento, aceitação e saúde mental de pessoas LGBTQIA+
Pessoas heterossexuais, em geral, não precisam anunciar para a família quem amam. Ninguém costuma precisar reunir as pessoas que ama para contar que está apaixonado, justificar um relacionamento ou explicar por que escolheu determinada pessoa para compartilhar a vida. Para muitas pessoas LGBTQIA+, porém, falar sobre sua orientação sexual ou identidade pode envolver medo, insegurança e receio de rejeição.
Desde cedo, algumas pessoas aprendem, de forma explícita ou silenciosa, que determinadas formas de amar podem não ser compreendidas ou aceitas. Isso pode fazer com que passem a medir gestos, esconder afetos, evitar determinados assuntos ou escolher cuidadosamente quando e para quem podem falar sobre si. Antes mesmo de se assumirem, muitas vezes já existe todo um processo interno de imaginar possíveis reações, consequências e perdas.
Viver com a sensação de que é preciso esconder uma parte importante de quem se é pode afetar a saúde mental. O medo da rejeição, a vergonha, a ansiedade, a culpa e a sensação de não pertencimento podem surgir quando a pessoa sente que precisa escolher entre ser autêntica e preservar vínculos importantes. E é importante deixar claro: o sofrimento não está em ser LGBTQIA+, mas nas experiências de preconceito, discriminação, rejeição e insegurança que podem acompanhar essa vivência.
Por isso, falar sobre saúde mental também é falar sobre pertencimento. Todos precisamos sentir que podemos existir em nossos relacionamentos sem precisar apagar partes de nós mesmos para sermos aceitos. Um ambiente de acolhimento não significa concordar com tudo sobre a vida do outro, mas reconhecer sua dignidade, respeitar sua existência e permitir que ele possa viver seus afetos com segurança.
Ninguém deveria precisar esconder quem é para continuar sendo amado. Pessoas LGBTQIA+ não deveriam precisar explicar seu amor para merecer respeito, cuidado ou pertencimento. E, quando alguém decide falar sobre sua orientação sexual ou identidade, essa decisão deveria acontecer porque se sente seguro e livre para fazê-lo — e não porque precisa provar alguma coisa.
Talvez o problema nunca tenha sido o amor. Talvez esteja na ideia de que alguns amores precisam ser anunciados, explicados ou justificados, enquanto outros simplesmente podem existir.
Porque amor não deveria ser uma confissão. Deveria ser apenas humano.
